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Perspectivas econômicas para 2018

Por Henry Petry e Miguelangelo de Bona

No ano de 2017, o país passou por uma lenta – e turbulenta – recuperação econômica. No entanto, este fato deve ser encarado com cautela, pois diversos fatores limitam que ocorra uma recuperação mais assertiva da economia brasileira. A queda contínua no preço das commodities, a nível mundial, a diminuição do ritmo de importações da China, a crise política e a incerteza quanto às eleições de 2018 são alguns desses fatores.

Do ponto de vista da indústria, temos diversos índices animadores publicados nos últimos meses. O índice de confiança do empresário da indústria, apurado pelo CNI, aumentou para o maior nível desde abril de 2013, em 56 pontos. Essa confiança é refletida pelo aumento da importação de bens de capital, no mês de setembro, de 71,5% em relação ao mês anterior. A perspectiva positiva para o aumento de investimentos na indústria também é reforçada por medida recente aprovada pela CAMEX, que zera diversas alíquotas de impostos de importação de bens de capital, inclusive veículos automotores leves. Essas perspectivas de melhorias no ambiente de investimento no Brasil já começam a ser timidamente realizadas, como podemos inferir pelo índice IPEA de formação bruta de capital fixo, que teve um desempenho 2,5% superior no último trimestre de 2017, em relação ao ano anterior. Do ponto de vista das exportações e comércio exterior, grande parte das notícias não é muito animadora. Apesar de apresentar certo crescimento no volume das exportações no ano, os preços das commodities (maiores parcelas do mix de exportações brasileiro) apresentaram quedas significativas no período. Além disso, a tendência desses preços continua de queda a nível mundial para 2018, segundo dados do FMI, o que deve depreciar ainda mais os termos de troca brasileiros em relação ao resto do mundo no próximo ano. Apesar disso, a importação de bens intermediários para a agropecuária cresceu bastante no período (Aproximadamente 62,5%, segundo a FGV), e a exportação dos setores extrativo e agropecuário também mostrou expressivo crescimento neste ano (30,3% no extrativo e 17,9% no agropecuário, também segundo a FGV). Esse crescimento ajudou a manter a variação do PIB num nível estável, mesmo com queda do nível de produção industrial nos primeiros meses do ano. Importante citar, também, que a dependência brasileira da China aumentou: é responsável hoje por 23,2% das exportações brasileiras, maior nível histórico. Produto mais vendido pelo Brasil, a soja triturada tem na China seu principal comprador: 78% da nossa soja triturada é exportada aos chineses, US$ 18 bilhões dos cerca de US$ 23 bilhões exportados no total em 2017. É mais um exemplo da importância da China na balança comercial brasileira. Ela figura tanto entre os nossos principais compradores, como nossos principais importadores. Entre os produtos mais comprados estão a soja, o minério de ferro, petróleo em bruto e a celulose. Isso quer dizer que uma desaceleração do crescimento da economia chinesa poderia impactar grandemente as exportações brasileiras.

Do ponto de vista fiscal, o governo deve fechar o ano de 2017 novamente com resultado primário fora da meta estipulada pela lei orçamentária, mesmo com os arrochos fiscais realizados nos primeiros meses do ano. A crise política dificulta que os ajustes fiscais sejam praticados com assertividade pelo governo, já que este precisa realizar acordos entre as bases para continuar no poder, o que aumenta os gastos com favores políticos. Do ponto de vista de endividamento, a situação é estável para o governo, com a dívida líquida permanecendo a níveis semelhantes aos dos dois anos anteriores, assim como a necessidade de financiamento do setor público. Além disso, a perceptível melhora do risco Brasil neste ano facilita a obtenção de crédito pelo país. O índice EMBI+ de risco Brasil alcançou o menor nível desde 2014, em 226 pontos no mês de janeiro. Isso quer dizer que o risco percebido pelo investidor estrangeiro de se investir em títulos públicos brasileiros diminuiu – e, neste nível, o investidor estrangeiro enxerga os títulos públicos brasileiros como vantajosos para investimento. Isto, além de facilitar a captação de crédito pelo governo, pode aumentar a presença de capital estrangeiro no país. A queda da taxa SELIC e da inflação também favorecem o investimento no país. A taxa SELIC se encontra no menor valor desde 2012 e a perspectiva de que ela continue em tendência de queda favorece o investimento interno. A queda na inflação também melhora o ambiente de investimentos e de consumo doméstico. Segundo o ICF (Índice de Consumo das Famílias) publicado pela FECOMERCIO, a perspectiva de consumo das famílias dobrou desde 2015 e continua em ascensão. Esse aumento é especialmente perceptível dentro da perspectiva de consumo de bens duráveis, que deve também ser favorecido pela queda nas tarifas de importações destes bens citada anteriormente.

Nos índices sociais, podemos citar especialmente a taxa de desemprego, que apresenta leve melhora desde março de 2017 (atingindo seu pico histórico em 13,7%). A última medição da taxa, até outubro de 2017, foi de 12,2%. Esta taxa de desemprego ainda é bastante significativa e sua queda deve ser gradual conforme ocorra a recuperação do setor industrial. De acordo com os últimos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em março as demissões superaram as contratações em 63.624 vagas, resultado de 1.261.332 admissões e de 1.324.956 demissões no mês. No acumulado do primeiro trimestre de 2017, o país registrou o fechamento de 64.378 postos de trabalho.

Por fim, precisamos mencionar as eleições deste ano. Existem diversos cenários apontados por especialistas, mas a maioria ainda é incerta – os candidatos ainda não foram definidos pelos partidos e alguns dos principais nomes podem ser impedidos de concorrer – em especial, o ex-presidente Lula, que se mostrava o favorito nas pesquisas, está impedido de concorrer por ter sido condenado recentemente em segunda instância. No entanto, a maior parte dos especialistas acredita que as chances das reformas econômicas serem intensificadas pelo sucessor à presidência são grandes, o que favorece um certo grau de otimismo por parte dos economistas. Entretanto, dadas as circunstâncias de incerteza quanto às eleições, acreditamos ser prudente manter um grau de precaução quanto às previsões realizadas que levem em conta os resultados das eleições.

Levando-se em consideração todos os dados expostos, acreditamos que o principal motor de recuperação brasileiro – a produção e exportação de commodities – deve apresentar dificuldades no ano de 2018, com reduções de preços e possível diminuição da taxa de crescimento do maior parceiro comercial brasileiro, a China. Essas dificuldades podem ser compensadas pelo setor industrial, que apresenta perspectivas de melhora – no entanto, estas perspectivas ainda não foram realizadas, e existe certa relutância do empresário industrial quanto à realização de investimentos antes das eleições presidenciais no país, em outubro deste ano. Essa incerteza se intensifica pelo fato destas eleições não terem candidatos claros, nem plataformas específicas dos possíveis candidatos ao poder. Portanto, acreditamos que o ano de 2018 será de manutenção dos níveis econômicos do país de 2017 – ou seja, de lenta recuperação – até que as eleições sejam consumadas e o investimento possa voltar a acontecer no país.